Folclore e mitologia na fantasia: breve consideração


A fantasia, de modo geral, não me atrai tanto para a leitura, embora semanalmente alguém me indique um livro ou outro e lançamentos de novos títulos ocorram tanto pelas editoras quanto por edições independentes. Parte de meu desinteresse vem de os temas sugados de obras mainstream (de Tolkien a George Martin, com passadas por Rowling e Stephen King), de como a jornada do herói (não confundam com o monomito proposto por Joseph Campbell, que é muito mais interessante do que os passos simplórios propostos por Christopher Vogler em seu livro-bíblia-de-quem-tem-preguiça-e-criatividade A Jornada do Herói) se tornou uma receita padrão em histórias fantásticas e da ausência de boas ideias, que consigam despertar aquele anseio pelo maravilhoso.

Então, quando aparecem obras que consigam se destacar, eu dou a atenção que merecem, independente da época em que foram escritas e da nacionalidade ou do sexo de quem as escreveu. Desculpem os demagogos, mas eu me recuso a ler um livro nacional medíocre por puro coleguismo e necessidade de incentivar a literatura nacional; se for bom, vou ler; se não for, não vou. Funciona com qualquer livro, qualquer história, qualquer autor ou autora, independente ou clássico, mainstream ou amador.

As coisas pioraram após a leitura da trilogia Fronteiras do Universo, de Philip Pullman. Ainda no primeiro livro, A Bússola de Ouro, eu já estava ciente de que a história era uma das melhores já escritas e dificilmente alguém conseguiria superar; em A Faca Sutil, eu queria abandonar todo meu principal projeto literário, o Lordeverso, por haver pontos em comum; e em A Luneta Âmbar, estava satisfeito e sabia que outras histórias precisariam de muito para me conquistar.

E poucas me conquistaram, é verdade.

Entre essas poucas, os livros do polonês Andrzej Sapkowski são os que saltam e me chamam por um detalhe: a mitologia.


A saga de Geralt de Rívia é conhecida por quem aprecia jogos eletrônicos: ele é protagonista da série The Witcher. Para mim, o que mais interessa são os livros, quase todos lançados no Brasil e traduzidos diretamente do polonês (informação retirada deste site). Li uma das HQs, A Casa de Vidro, e adorei aquilo, ficando com vontade de mais. Então, em breve deve rolar resenha do primeiro livro da série por aqui.

Mas...

... como eu disse, o que mais me chamou a atenção inicialmente na série é o uso do folclore polonês. E eu amo mitologia, religiões e folclore, e são elementos recorrentes em grande parte de minha produção literária.


E é maravilhoso quando um escritor ou uma escritora de fantasia mostra um pouco do folclore de seu país ou região em que nasceu/morou/viveu! Ou quando pesquisa exaustivamente uma cultura e a reproduz com o máximo de detalhes em suas histórias. É o que fez Tolkien, George Martin, Rowling e Neil Gaiman (com um livro sobre mitologia nórdica como mais recente lançamento), por exemplo. E Monteiro Lobato, quem admiro bastante como escritor. E não é o que segue Rick Riordan, por sua vez, que prefere subverter até demais as mitologias, criando versões no mínimo duvidosas.

Se há coisas que admiro em Tolkien, Martin, Rowling e Gaiman é o cuidado que os quatro tiveram com o folclore e a mitologia que pegaram criaturas emprestadas. E é o que sinto muita falta na maioria das histórias de fantasia que ne deparo (sejam elas urbanas, épicas e afins), o que me afasta de ter interesse por muitos e muitos títulos. Quem se inspira num autor geralmente o copia de forma limitada, tanto sua estrutura de contar uma história quanto suas versões de seres fantásticos: há quem ache, por exemplo, que os elfos de O Senhor dos Anéis são a "verdadeira versão" e os de Rowling uma imitação deformada.


Claro que apenas o uso de mitologia/folclore não garante uma boa história, ou Percy Jackson seria Nobel de Literatura. Há todo um conjunto de elementos que determinará o sucesso do autor em sua empreitada por contar uma aventura. E eu vou seguindo outros critérios até poder finalmente investir na leitura de um livro.

Nisso, posso assegurar que entre minhas leituras futuras figuram a série de histórias A Galeria Creta (Jana P. Bianchi), a fantasia delicada, simbólica e profudamente inspirada de contos de fadas e lendas antigas Lagoena (Laísa Couto), a fantasia urbana Alvores (Lauro Kociuba) e os contos de A Bandeira do Elefante e da Arara (Christopher Kastensmidt), que é uma das coisas mais interessantes que tive notícia no que se refere ao folclore brasileiro.


Então, se eu posso dar um conselho de escritor para outro, é simples: invistam mais na mitologia que permeia suas histórias. Pense nos detalhes, nas criaturas, pegue livros de mitologia, e não apenas os de ficção (os quais provavelmente irão copiar o que é de propriedade intelectual de alguém). Se não pretende seguir à risca uma lenda ou uma cultura, mescle, crie a sua (mas não faça um desastre como Riordan faz!), ouse! Tolkien, Rowling, Gaiman, Martin e Lobato fizeram as deles. Faça a sua ser tão interessante quanto a dos escritores que admira!

Todas as imagens desta postagem são concept arts oficiais do jogo The Witcher 3.